Desde 2017, quando começamos o projeto da Revista Acréscimos, ainda no site Medium, nunca lancei mão do recurso que será utilizado agora: Repetir um texto antigo. Mas nesse caso, além de aproveitar a possibilidade de migrar um pouco das minhas mal traçadas linhas para o nosso novo site, faço isso por causa de um assunto recorrente demais e que me preocupa.

Na tarde da última sexta (30/11), um grupo de cerca de 30 pessoas (não gosto de me referir a esse tipo de gente como torcedores) invadiu o centro de treinamento do Fluminense, cobrando e pressionando os jogadores antes do jogo decisivo contra o América/MG. O que esse tipo de manifestação agrega, a não ser publicidade gratuita para essas pessoas, eu confesso não saber dizer.

Mesmo assim, confesso que tentei dizer algo em junho do ano passado no texto abaixo, logo após um problema parecido que aconteceu, daquela vez, no Flamengo; o que escrevi naquela época continua valendo totalmente agora. Inclusive o título é o mesmo:

Na manhã da última sexta-feira (9/6), cerca de 200 torcedores (?) do Flamengo foram ao Ninho do Urubu, centro de treinamento do clube, protestar. “Honrem o manto”, “Alto investimento. Pouca resposta” e “Se damos a vida, exigimos que vocês deem o sangue” foram os dizeres de algumas faixas e cartazes expostos na entrada dos jogadores no CT. No meio dessa manifestação uma bomba foi ouvida pelos jornalistas presentes e alguns desses “torcedores” cercaram o carro de Mancuello e Juan. Em outro momento, atiraram alface em um veículo, pensando tratar-se do carro do goleiro Alex Muralha.

Contando assim parece ser mais um episódio corriqueiro dentro da rotina dos nossos clubes de futebol quando eles perdem alguma partida mais importante, principalmente em um clássico de grande rivalidade, ou após alguma eliminação de torneio relevante. No entanto, essa normalidade é o que mais me assusta. Não vi nenhum jornalista se manifestar de forma mais enfática contra esse protesto específico, nem lembrar que esse tipo de manifestação intimidatória é cada vez mais comum em clubes nacionais.

Em situações como essa muitos fazem uma já tradicional comparação dizendo que “se todo mundo protestasse assim para outras áreas da nossa sociedade, o Brasil estaria melhor como um todo”. Sim, mas em parte.

Faixa que a torcida do Flamengo colocou na porta do CT do clube, em junho de 2017. (Foto: Reprodução do Twitter no R7.com)

Vários (para não dizer todos) destes protestos são movidos não apenas pela má fase dos times em campo, mas por interesses das torcidas organizadas, que se arvoram de um poder e uma representatividade que não encontra eco junto aos torcedores “comuns” (que eu chamaria de “não-profissionais”). Muitos ali gostam da fama que ganham ao aparecer em vários canais de TV e em fotos de jornal e internet.

No fim, a ressonância dessas manifestações se dá muito mais pela imprensa do que pela própria ação em si. Pois é preciso ser muito crédulo para achar que apenas a pressão de alguns marmanjos que aparecem em dias normais de trabalho no treino dos jogadores fará com que eles joguem melhor. Pode ter um efeito psicológico que cria mais vontade em alguns, mas na maioria dos casos causa efeito contrário.

Após eliminação da Libertadores de 2000 e protesto no Parque São Jorge, Edilson deixou o Corinthians e time foi mal na Copa João Havelange. (foto: Epitácio Pessoa / Estadão)

O exemplo do Corinthians no ano 2000 é notório. Depois de ser eliminado na semifinal da Libertadores daquele ano pelo Palmeiras, um grande protesto aconteceu no Parque São Jorge, sede corintiana. Jogadores como Vampeta e Edilson saíram do clube após a confusão e a equipe fez uma campanha horrível na Copa João Havelange (o Campeonato Brasileiro daquela temporada) e só não foi rebaixado porque o torneio foi feito sem acesso e descenso. Ou seja, gritar e causar confusão não adiantou e não trouxe nada de positivo para o ano do clube.

E justamente os clubes possuem muita culpa nessa situação. O financiamento dessas torcidas organizadas continuam de forma clara e evidente e o próprio Flamengo continua aderindo a essa prática. Na estreia do estádio remodelado na Ilha do Governador, a chamada “Ilha do Urubu”, na última quarta-feira (14), isso ficou claro mais uma vez. Com um chamado plano especial, membros das facções Raça Rubro-Negra, Fla Manguaça e Urubuzada tiveram ao menos 800 ingressos por jogo garantidos para o disputado setor Norte — o mais barato (R$ 208 no pacote de três jogos) do estádio, com capacidade para 4.600 torcedores.

Presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Melo (no centro da foto), com membro de facções organizadas do clube. (Foto: Pedro Ivo Almeida / UOL).

Fica difícil querer exigir uma neutralidade tanto por lado da torcida quanto por parte dos dirigentes que, na verdade, se comportam como torcedores que facilitam situações para seus apoiadores. Mas o que mais me preocupa verdadeiramente nessas manifestações é a normalidade com que elas são encaradas hoje em dia, como disse acima. E a espiral de violência e intolerância que isso pode vir a causar.

No dia em que algum jogador – que por pior que seja tecnicamente, é um trabalhador como qualquer outro e merece o respeito em seu local de trabalho – ou mesmo funcionário do clube for ferido gravemente por algum desses imbecis travestidos de torcedores talvez as pessoas vejam que essa é uma situação perigosa e que estamos nos acostumando a aceitar de forma muito tranquila.

Espero estar sendo apenas um pouco alarmista, mas que os clubes e que a sociedade entendam que quem causa esse tipo de transtorno deve ser excluído do mundo do futebol e seja punido de forma efetiva. Não é com esse tipo de protesto que veremos um futebol melhor jogado em nossos estádios e a violência nunca se justifica.

Em relação ao que aconteceu no Fluminense, infelizmente tenho certeza que muitos dirão que, se o time carioca escapar do rebaixamento, muito será por causa dessa ação dos vândalos na última sexta. Espero, ao menos, que as pessoas de bom senso (sei que ainda existem no Brasil) não pensem assim.