A normalidade do erro

A partir do momento em que sentamos para acertar o contrato, a primeira coisa que eu deixei muito claro é que não há a menor possibilidade de o Vagner Mancini assumir em qualquer hipótese. Porque a minha vinda para cá é exatamente para exercer uma função diferente, função de coordenação, para dar respaldo, para ajudar, dar respaldo, levar informação também a outros lados, ao lado da diretoria, ao lado de todos os setores que formam a estrutura do departamento de futebol. Então, não há a menor possibilidade”.

Essas foram as palavras de Vagner Mancini, coordenador técnico do São Paulo, quando assumiu este cargo em janeiro deste ano. 39 dias depois dessa declaração, após o mau desempenho de André Jardine como treinador em 10 partidas na temporada (sendo 2 amistosos disputados na Flórida, numa pré-temporada curtíssima e de elaboração, no mínimo, discutível), Mancini, com a anuência da diretoria de futebol e do presidente do clube, assume o São Paulo como…treinador! Claro, Jardine foi eliminado em uma Libertadores (não existe pré-Libertadores) e isso mancha qualquer trabalho e o dele vinha sendo ruim, mas de toda forma, a interinidade do coordenador técnico me choca demais.

Sim, a passagem de Mancini é colocada como provisória, já que o novo técnico do São Paulo será (será?) Cuca, mas este só estará pronto para assumir o time em abril, devido a problemas de saúde. Minha pergunta, se Cuca realmente vai assumir o time, além da preocupação em relação à sua recuperação, que espero ser plena, acontece pelo fato de que não é possível confiar na atual diretoria do São Paulo.

“A gente não vai avaliar o Aguirre por um jogo ou alguns jogos apenas. Vai ser por toda a temporada. Vamos fazer isso com calma e não vamos falar de treinador por causa de um jogo ou alguns jogos que foi mal. É uma coisa que a gente consegue ir conversando com a comissão técnica e não vai avaliar por um período apenas.”

“Essa semana definimos André Jardine como o treinador do São Paulo para 2019. Ele será efetivado. Ele trabalhou duro para conquistar essa oportunidade. A efetivação é fruto da confiança no trabalho, da qualidade e da competitividade que sempre mostrou em sua história, nesses quatro anos de São Paulo.”

As duas frases acima mostram falas de Raí, diretor executivo de futebol do São Paulo, antes de demitir Diego Aguirre, no campeonato brasileiro passado, a 5 jogos do término da competição e ao efetivar André Jardine no posto, mostrando uma convicção que parece ser, no mínimo, bem volúvel, frente aos resultados negativos. É evidente que não dá para culpar apenas Raí pelos problemas, haja visto que os problemas administrativos do clube vem de longe, muito longe. Cuca (sem contar o tempo interino de Mancini) será o oitavo treinador do São Paulo no mandato de Leco, desde 2015; isso deixa claro que o problema da instituição é muito maior que a simples troca de nome no banco de reservas.

Mas o que mais me chamou a atenção é como a bagunça e desfaçatez dessa situação toda foram neutralizadas e eu mesmo me sinto culpado por acreditar que isso poderia não acontecer.

No fim do ano, quando Jardine foi confirmado como treinador para 2019, a ideia do senso comum era que este roteiro que estamos vendo agora, com o jovem técnico sendo demitido tão logo tivesse maus resultados, a presença de Mancini como “interino” e a vinda de Cuca, aconteceria cedo ou tarde. Eu, trabalhando com jornalismo, entendo que não posso contribuir ainda mais para um clima de insegurança para um profissional, de forma deliberada, mesmo que os sinais de que isso poderia acontecer fossem claros. Mesmo assim preferi acreditar minimamente no discurso.

Ao ver que uma pessoa que havia dito claramente que não assumiria um clube, muda seu discurso logo na primeira dificuldade, fico realmente a pensar se vale a pena acreditar nos conceitos e na seriedade das pessoas. Sei que o futebol é assim, que até mesmo dentro da bagunça generalizada que impera hoje no São Paulo, o time dentro de campo pode se acertar e melhorar. Mas me incomoda muito ver um clube tão gigantesco, ser moralmente rebaixado dessa forma, com atitudes tão comuns, mas tristes e lamentáveis, que realmente me espantam.

Mas, se prestarmos atenção a foto que ilustra este texto, vemos que nem a ordem correta da cor da bandeira do clube, colocada no local de cobrança de escanteio, está sendo respeitada em um clube Tri-Campeão Mundial (só para registrar, o vermelho fica acima do preto).

Realmente, fica difícil imaginar algo melhor a curto prazo, ainda que, na normalidade muitas vezes totalmente errada do futebol, mudanças possam acontecer.