O Campeonato Brasileiro da primeira divisão é disputado pelo sistema de pontos corridos desde 2003, à época com 24 times. A partir de 2006 ele passou a ter 20 equipes e desde então a fórmula de acesso e descenso permanece a mesma, com a subida e a queda de 4 agremiações por ano. No entanto, muita gente não concorda com esse número.

O comentarista da ESPN Brasil Maurício Barros escreveu sobre isto a alguns dias, praticamente exigindo a redução do número de participantes da Série A nacional para 18, ou até mesmo 16 times. No entender de Maurício, não temos tantos times “ de estrutura, de categorias de base, de capacidade financeira e de competência administrativa” para que o Brasileiro permaneça com suas 38 rodadas já tradicionais.

Respeito todas as opiniões e, no caso desta, até penso que poderíamos ter uma nota de corte menor para rebaixamento, com 3 times caindo e 3 subindo (mas sem esse mecanismo de playoff de times da Série A contra algum da Série B, acho injusto). Entendo também que exista um desnível visível entre os times de maior potencial de investimento financeiro (notadamente os 12 grandes de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul) e os demais. Porém, achar que apenas a redução de times em um campeonato nacional, ainda mais em um país com as dimensões territoriais brasileiras, vá resolver os problemas de nível técnico do torneio, é algo, na minha opinião, muito simplista.

Primeiro, como eu disse acima, em um país quase que continental, chega a ser quase uma violência você reduzir as vagas de primeira divisão. 20 é um número bastante normal de times em torneios nacionais, basta lembrar dos principais campeonatos europeus; Espanha, França, Inglaterra e Itália conseguem fazer torneios representativos com 20 participantes; dos torneios principais apenas a Alemanha coloca 18 equipes na sua divisão principal. E todos esses países possuem território muito menor que o brasileiro.

Além disso, a ascensão de equipes nos torneio nacionais por aqui não é tão simples como nesses tradicionais países do futebol mundial. Quem joga desde a Série D, por exemplo, não possui a garantia de um calendário extenso, já que a primeira fase da quarta divisão é feita, atualmente, com apenas 6 partidas; quem fica pelo caminho terá um longo período de inatividade. E esse é só um dos problemas do calendário brasileiro…


Falando especificamente da Série A. O alegado baixo nível técnico do campeonato, que é citado no texto de Maurício, é muito mais uma consequência de outros fatores do que algo ligado à suposta causa principal do problema, que seria o inchaço do torneio. E um dado para mim é fundamental para que esse desnível aconteça. Abaixo estão as cotas de TV que os clubes receberam da Globo para o torneio deste ano:

Corinthians — R$ 170 milhões // Flamengo — R$ 170 milhões

São Paulo — R$ 110 milhões // Palmeiras — R$ 100 milhões // Vasco — R$ 100 milhões

Santos — R$ 80 milhões

Atlético -MG — R$ 60 milhões // Cruzeiro — R$ 60 milhões // Botafogo — R$ 60 milhões // Internacional — R$ 60 milhões // Grêmio — R$ 60 milhões // Fluminense — R$ 60 milhões

Atlético-PR — R$ 35 milhões // Bahia — R$ 35 milhões // Vitória — R$ 35 milhões // Sport — R$ 35 milhões

Chapecoense — R$ 32 milhões

América-MG — R$ 30 milhões

Ceará — R$ 23 milhões // Paraná — R$ 23 milhões

Fica evidente a diferença dos que mais recebem para os que fecham a fila e a discrepância até mesmo de espaço na mídia para quem não é um dos “grandes”.

Em termos estritamente financeiros, para o ano que vem, muito pelo fim da exclusividade na exibição do campeonato, já alguns times assinaram com a Turner e devem ter, em teoria, jogos transmitidos no canal do grupo norte-americano, o modelo de contrato de televisão da TV Globo foi alterado em parte. Ele prevê a distribuição de receitas de TV Aberta e Fechada de três formas: 40% igual entre os times, 30% por número de exibição na Globo, e 30% por posição no campeonato. Há ainda o sistema Pay-Per-View dividido por torcida. Pode-se supor uma divisão mais igualitária, mas esse novo contrato também prevê que não existe uma “proteção” aos times que forem rebaixados; ou seja, quem cair não manterá para 2020 a mesma cota, como aconteceu com muitos times grandes que foram para a Série B nos anos de pontos corridos. Podemos dizer então que, quem for rebaixado e já recebe menos, não terá a mesma facilidade para retornar à primeira divisão.

A diferença entre o que ganham os times mais midiáticos para aqueles que não possuem tanto espaço é, portanto, fundamental para que o nosso principal campeonato nacional passe a impressão de ser ainda pior do que é. Isso sem falar na bagunça do calendário, do êxodo dos jogadores, das janelas que fecham para contratações mas permanecem abertas para a saída de atletas, o atraso conceitual e da forma de jogar dos nossos times, o imediatismo da imprensa e da torcida por resultados…Todas essas causas contribuem muito mais para uma certa pobreza técnica dos nossos jogos do que a simples presença de 2 ou 4 times a mais, ao invés de um suposto número ideal de equipes.

Com 18 ou 16 times poderíamos ter mais clássicos tradicionais, mais repercussão da mídia que costuma falar das mesmas equipes em seus programas (falei desse assunto AQUI). Mas isso não é necessariamente garantia de jogos melhores. E além disso, essa ideia, no meu modesto ponto de vista, reforça um discurso elitista e excludente para as regiões menos observadas do nosso futebol, ainda que essa possa não ter sido a intenção de Maurício Barros em seu texto.

Construir a base para que o topo da pirâmide seja mais forte deveria ser o ideal. A imprensa, ao invés de segregar, poderia tentar valorizar mais os campeonatos nacionais de divisões menores e não apenas tentar separar os ricos dos pobres de forma pura e simples — falo isso sabendo bem que o futebol não é uma ilha socialista igualitária. Apenas penso que não é diminuindo o número de times na primeira divisão é que resolveremos problemas estruturais muito mais sérios em nosso futebol. E mais uma vez estaríamos apenas atacando uma das consequências, ao invés das causas.