“O quarto raio não veio”. Para os torcedores que acompanharam o Guarani de Divinópolis durante todo o campeonato mineiro e nos anos anteriores, esta expressão faz muito sentido. Afinal, o Bugre está rebaixado ao Módulo II mesmo depois de vencer a sua partida final contra o Villa Nova, de Nova Lima, por 2 a 1.

Na partida do dia 10 de abril, no estádio Farião, os 3.178 torcedores acompanharam os 90 minutos como se, em campo, estivessem oito times disputando a mesma bola. Isto porque para escapar da zona de rebaixamento o dono da casa precisava vencer o seu jogo contra o Villa e, ao mesmo tempo, deveria torcer contra o Boa Esporte, Tricordiano e um resultado negativo do Tombense. Todos os jogos simultâneos. Além disso, passavam aos olhos também os reflexos negativos de um campeonato inteiro.

Há bastante tempo o Guarani não atinge uma boa colocação no Campeonato Mineiro. Desde 2011, ano da volta do time a primeira divisão, o Guarani conseguiu apenas a 8ª posição e um 6º lugar no ano posterior. De lá pra cá foram três anos consecutivo com o Bugre disputando na parte de baixo da tabela e escapando da degola na última rodada. E em 2016 aconteceu de novo. Apesar da estrutura concedida ao time, a cidade, que possui de mais de 200 mil habitantes, não consegue contratar jogadores e entrosar o elenco para levantar a qualidade futebolística do Bugre. Esse fato, talvez seja o motivo que acarretou maus resultados ao longo dos anos, quando, em abril de 2016, o time acaba sendo rebaixado novamente para a segunda divisão do campeonato mineiro.

Guarani luta até o final, mas é rebaixado para o Módulo II do Campeonato Mineiro

(Foto: Carlos Cruz / América Mineiro / Divulgação)

Mas para entender como o Guarani chegou a situação tão delicada na última partida do campeonato desse ano, antes é necessário relembrar a campanha inteira. Durante o estadual de 2016 o time se mostrou muito instável. Conseguiu bons resultados contra os times da capital, considerados tecnicamente superiores, mas perdeu vários pontos para os times do interior. Talvez este tenha sido o motivo de ter transformado a jornada dentro do campeonato muito difícil, considerando o objetivo proposto pela comissão técnica de chegar, pelo menos, às semifinais da competição. Após a vitória contra o América, logo no primeiro jogo do Bugre na competição, o até então técnico Ricardo Leão admitiu que os 3 a 0 aplicados no time da capital era um resultado que ele mesmo classificou como “mentiroso”.

“Eu diria que a gente fez uma atuação acima da média, realmente. Mas, eu disse há pouco aos atletas que a gente tem que ter pés no chão. A tendência é a gente regredir à média e fazer algumas partidas com mais dificuldades, porque às vezes a gente não está em um dia tão inspirado quanto hoje. O futebol não tem essa linearidade. Não dá para pensar que o Guarani vai só evoluir”, surpreendeu-se Leão.

Passada a vitória contra o Coelho, o Bugre colecionou resultados negativos que culminaram na demissão do técnico. Neste meio-tempo o Guarani sofreu derrotas para Tricordiano, Tupi, Uberlândia e Tombense além dos empates contra Atlético e URT. O jogo contra o Atlético foi considerado um bom resultado, embora o time da capital tenha jogado com time alternativo e o Bugre teve claras chances de sair vitorioso. O que pesou mesmo para a dispensa de Ricardo Leão foram os outros pontos perdidos em casa contra a URT.

Foi chamado Ramon Menezes para a função de treinador. Antes de chegar a Divinópolis ele estava no comando do Anápolis, time do interior de Goiás, deixando o clube na segunda colocação do estadual. Com apenas 6 pontos na competição, o técnico chegou com a missão de tirar o time de Divinópolis da lanterna do campeonato.

Com apenas três treinos à frente do time, Ramon tentou dar o primeiro passo para tentar tirar a equipe de Divinópolis da zona de rebaixamento. O adversário era o Boa Esporte. Um confronto direto. O Guarani conseguiu um gol com 3 minutos, dos pés de Junior Barros, que vinha sendo criticado pelas baixas atuações. Na sequência, o Boa empatou, com Silas. Na volta do intervalo, foi a vez de o Boa começar balançando as redes, aos 2 minutos. Minutos depois, o Bugre empatou com Cordeiro. O terceiro gol só não saiu porque o Guarani pecou nas finalizações e ainda contou com uma zaga bem postada do adversário. Final 2 a 2.

Neste momento do campeonato, o Guarani ainda teria apenas mais três jogos para escapar do descenso. A primeira, contra a equipe da Caldense em casa. Depois, Cruzeiro fora. E por fim o Villa Nova. Cada ponto importava.

Às vésperas do jogo contra a Veterana, em entrevista dada ao repórter Luciano Eurides do jornal Gazeta do Oeste, o técnico do Guarani revelou ter notado evolução nos treinamentos. “Nesse momento o espírito tem que estar lá em cima. A vontade. A dedicação. O entendimento do trabalho durante a semana foi bem melhor. A gente espera estar bem melhor diante da Caldense”, avaliou Ramon Menezes.

Os treinamentos surtiram efeito. A vitória veio. Sofrida, mas veio. Ela surgiu na cobrança de falta de Romarinho. O jogador saiu do banco de reservas aos 18 minutos do segundo tempo, para aos 43, fazer o gol numa cobrança de falta. QUARENTA E TRÊS MINUTOS! O jogo ainda terminou com 4 expulsões, sendo 3 da Caldense. O Guarani respirava no campeonato. Foi apenas a segunda vitória no campeonato. Com o resultado, o Bugre foi a 9 pontos, não deixou a zona de rebaixamento, mas se aproximou dos clubes que estavam fora do Z-2.

A ducha de água fria veio uma semana depois. O adversário era o líder do campeonato. O Cruzeiro fez um resultado tranquilo, e venceu os divinopolitanos no Mineirão pelo placar de 2 a 0. Estava instaurada a situação delicada para a última partida do time.

A última batalha.

A 11ª rodada do campeonato mineiro foi feita simultaneamente em todos os 6 jogos. Além de seu próprio jogo, outros 3 importavam ao Guarani. Vencendo, o time divinopolitano somaria 12 pontos e torceria contra o Boa Esporte. Este, em caso de derrota, estacionaria no 10 pontos. Mas não bastava. O Guarani ainda torceria contra o Tricordiano, que jogaria fora de casa contra o Atlético, na teoria um resultado muito provável. A equipe de Três Corações permaneceria com 10 pontos. Concretizando as duas hipóteses, o Bugre estaria salvo. A terceira situação seria depender do empate entre Tombense e Uberlândia, a equipe de Tombos iria a 11 pontos enquanto a do Triângulo, somaria 13.

Sabendo disso, o Guarani partiu pra cima do Villa Nova. E logo aos 18 minutos do 1º tempo, Juninho passou a bola para atacante Marcus Vinicius na esquerda, ele se livrou da marcação e bateu rasteiro para o gol do Villa Nova e abriu o marcador. O rádio anunciava para os torcedores o gol do Cruzeiro. Anunciou logo em seguida o gol do Atlético. O estádio veio a baixo. Parecia pulsar. Eram os resultados necessários para permanecer na elite do futebol mineiro.

Confira fotos do jogo, aqui.

A euforia durou pouco. Sete minutos para ser exato. O Atlético tomava o gol de empate do Tricordiano. Aparentemente, o Bugre sentiu a agonia da torcida e também tomou o gol de empate. Mancini aproveitou a tentativa frustrada de conclusão de Fábio Junior, e livre de marcação chutou para as redes. 1 a 1. Apenas o Cruzeiro animava o torcedor presente no Farião. O time foi para o intervalo contra o Boa Esporte vencendo de 2 a 1.

Aos 47 minutos do primeiro tempo, o camisa 5 do Villa, Luis Felipe tomou o segundo cartão amarelo e foi expulso, após deixar a mão no rosto do seu adversário Genalvo. O Guarani jogaria todo o segundo tempo com um jogador a mais em campo.

No intervalo a apreensão era evidente. O técnico Ramon Menezes voltou com uma alteração no Bugre. Junior Barros entrou no lugar de Wander. Enquanto isso, o rádio informava que o Atlético havia tomado a virada do Tricordiano. Cinco minutos depois, outro gol. O Tricordiano fazia o impossível. 3 a 1 em Belo Horizonte para os visitantes. Silêncio ensurdecedor no Farião.

Foi quando, aos 24 minutos do segundo tempo, Felipe Cordeiro recebeu de Jonathan após cobrança de escanteio e mandou para o fundo das redes. O Guarani passava a frente do marcador novamente. 2 a 1. A partir daí todas as atenções se voltavam para o rádio. As informações das outras partidas se tornaram mais importantes do que o próprio jogo no Farião.

Isto é tão verdade que uma das rádios divinopolitanas, a Rádio Minas presente no estádio, deixou de transmitir o jogo e entrou em cadeia com a Rádio Cultura AM de Uberlândia.

Devido o resultado favorável no jogo do Cruzeiro contra o Boa Esporte, e o resultado contrário do Atlético versus o Tricordiano, somente a terceira e última hipótese salvaria o Bugre. Em Tombos os donos da casa venciam por 2 tentos a 1. Era necessário o empate do Uberlândia.

No Farião a bola rolava, porém não fazia sentido. O silêncio imperava. Foi quando, cerca de 35 minutos do segundo tempo, surgiu das arquibancadas um grito de gol. O repórteres na beira do campo se entreolharam e não entenderam o que se passou. Alguém havia confirmado que o Uberlândia empatara o jogo. Não fazia sentido, mas o grito se alastrou e chegou até o banco de reservas. Todos se abraçaram e festejaram como se o quarto raio tivesse atingido o Bugre. O mesmo raio que o salvou nas três edições anteriores da competição.

A Rádio Minas porém estava transmitindo o jogo entre Tombense e Uberlândia, mas não havia saído o gol. Imediatamente, o Repórter e diretor de esportes da emissora, Oliveira Lima, foi questionado e confirmou que poderia haver um atraso na transmissão. “A gente está com a Cultura pela internet, há um delay. Vamos aguardar”. Aguardamos. 14 longos e intermináveis minutos. O boato do gol era falso. Decepção.

Jordan; Felipe Cordeiro, Jean, Murilo; Anderson, Iago, Deyvison, Genalvo; Marcus Vinícius, Jhonatan e Wander. Depois Romário, Junior Barros e Renan. Foram estes os atletas que, apesar do descenso, receberam aplausos na saída do campo. O árbitro Cleisson Veloso Parreira soou o apito pela última vez e ninguém sequer viu. O Guarani fez sua parte, mas acabou rebaixado porque o Tombense venceu o Uberlândia por 2 a 1. O Atlético perdeu para o Tricordiano por 4 a 2. E o Cruzeiro venceu o Boa por 3 tentos a 2.

Após o jogo o técnico Ramon Menezes se desculpou com o torcedor divinopolitano. “O meu sentimento é de tristeza. É o que eu falei lá dentro do vestiário: só os fortes sobrevivem no futebol. Futebol é uma coisa dura e séria. A partir do momento em que eu tomei a decisão de vir pra cá, eu corri o risco. E futebol também é um risco”, lamentou-se.

O técnico ainda avaliou que o time teve uma reação dentro do campeonato. Dos doze pontos disputados com Ramon no comando do Bugre, o grupo conseguiu ganhar sete. “Isso nos deixa com mais de 50% de aproveitamento nas quatro últimas rodadas. Os jogadores tiveram entendimento da situação, mudaram a postura, e isso me deixa satisfeito. Agora é tirar isso de lição”.

Os torcedores já aguardam ansiosos pelo retorno do time a elite do campeonato e esperam uma boa atuação do time para tal feitio.