Pela sobrevivência do Guarani

Depois da poeira baixar, temos até mesmo a obrigação de escrever algo sobre o rebaixamento do Guarani para o Módulo II do Campeonato Mineiro. Após uma extensa cobertura da TV Bugre do Grupo Gabiroba (também em nossas redes sociais), pudemos acompanhar a trajetória não tão bem sucedida da equipe de Divinópolis neste campeonato de 2019.

Desde 1996 o Bugre voltou a disputar a primeira divisão mineira com maior frequência. E desde então não conseguiu chegar nas fases decisivas da competição. E nesse tempo de 23 anos, foi rebaixado em 5 ocasiões: 1999, 2001, 2009, 2016 e agora nesta temporada. Ou seja, fica claro que o(s) problema(s) do Guarani não vêm de agora.

Em termos estruturais o clube joga no Farião, estádio tradicionalíssimo e histórico, mas que têm claros problemas por ser muito acanhado e ter sua tentativa de modernização incompleta, na construção dos módulos de arquibancadas, desde o meio da década passada.

A falta de dinheiro impede maiores investimentos, ainda que exista hoje algum trabalho de base, mas que faz com que aconteça um pensamento enviesado por parte da cidade de pouco mais de 210.000 habitantes. Muitos pensam que, apenas colocando pessoas ou jogadores da cidade, tudo vai funcionar às mil maravilhas. E não é bem assim.

Até concordo que, especificamente neste Campeonato Mineiro de 2019, em alguns momentos, o técnico Gian Rodrigues poderia ter utilizado mais os jogadores “prata da casa”, pois a equipe normalmente apresentou um futebol morno, inclusive em jogos em casa, como contra a Caldense (partida que terminou em 0x0) ou na partida em Juiz de Fora contra o Tupynambás (2×0 para o Baeta, jogo reconhecido como o pior do Bugre no campeonato, por quem esteve vendo in loco). Mas dizer que apenas isso seria a fonte de soluções para o clube, não é bem a realidade.

Acompanhei, principalmente junto com meu colega João Luiz Reis, o trabalho do Guarani desde o ano passado, e vimos que em termos práticos e das pequenas despesas, por assim dizer, tudo foi feito para que o time pelo menos escapasse do rebaixamento. A organização logística e de concentração funcionou, não tivemos atrasos de salário. A base que foi campeã do Módulo II foi mantida e aí, nesse ponto, muitos também elogiaram (quando os resultados positivos vieram…).

Porém os reforços contratados (com maior exceção do capitão, o zagueiro Paulão) não deram a resposta esperada e o time não soube vencer fora de casa depois da primeira partida, derrota em casa contra o Cruzeiro por 3×1. Os empates contra Boa Esporte e Villa Nova (2×2 e 0x0 respectivamente) foram comemorados a época, mas claramente poderiam ser transformados em vitória, principalmente na partida de Nova Lima, e esse triunfo que não veio fez muita falta.

( — Abro parênteses aqui para fazer uma crítica à Federação Mineira. Nesse momento de início de campeonato, tivemos 5 jogos disputados em 15 dias o que, com maus resultados, fez com que a caminhada do Guarani ficasse mais espinhosa, inclusive enfrentando Cruzeiro e Atlético/MG. Mas a minha maior crítica nem é por causa do clube, mas sim pelo calendário tão descompensado).

O time poderia ter se reforçado mais? Talvez, mas sem tanta condição financeira e também por acreditar no trabalho feito, apenas o lateral Rodrigo Dias foi contratado e até ajudou pelo lado direito do campo. Mas jogos fundamentais em casa, contra Tupi e Tombense não foram vencidos e a equipe ficou na dependência de vencer o América, em Belo Horizonte, na última rodada.

O empate em 2×2 foi um duro golpe para uma equipe que lutou e ficou fora de, até mesmo, uma classificação para as quartas de final, por apenas 1 gol. Claro, o time não foi rebaixado pelo acaso. Mas, especificamente nessa campanha, ele caiu muito por detalhes.

Mas o que me preocupa muito mais é o futuro do clube como um todo. A sequência que descrevi no começo é que chateia mais e faz com que o rebaixamento seja uma rotina para o Guarani, infelizmente. A estruturação da instituição seria necessária para que o time tenha condição de se sustentar e poder ter mais força de ir bem nos campeonatos que vier a disputar.

Pedir a “união dos empresários da cidade” é um clichê que, muitas vezes, não adianta muito. Até porque não adianta apenas ter dinheiro se não existir competência na montagem dos elencos. Mas o principal a meu ver, é acontecer a conscientização de que o clube pode simplesmente desaparecer se não for bem cuidado e se não aparecer um projeto que tenha um prazo e uma visão maior de duração.

Não adianta apenas pensar no próximo ano, ainda que seja muito bom ver o Guarani de volta ao Módulo I em 2021. O importante é pensar na sobrevivência, para agora e para muito mais tempo.

(- Quem quiser ouvir a nossa cobertura durante o Campeonato Mineiro, pode escutar o nosso podcast DOIS TEMPOS, com várias edições dedicadas ao Guarani e seus jogos. Ouça pelo iTunesMixcloudGoogle Podcasts ou Spotify!)